Entrevista Luís Buchinho
Ouve pop do início dos anos 80, presença assídua no calendário de Paris, é Português e simpático – Luís Buchinho sempre foi daqueles designers nacionais que nos despertou maior curiosidade. Apesar do meio português ser pequeno, a sua obra está repleta de trabalho sólido, reconhecido e com uma forte identidade própria, o que por vezes não é tão fácil de encontrar junto de alguns designers por aqui. O melhor de tudo é que nunca nos traz grandes desilusões, estação após estação. Exemplo disso foi a “sereia urbana” que criou para o próximo Inverno, com peças cheias de movimento, orgânicas, com as habituais misturas de materiais e assimetrias, sempre Buchinho.
O TANDANSSE arriscou e petiscou. Luís aceitou ser entrevistado por nós e ainda conseguimos algumas imagens de arquivo, graças à prestabilidade e simpatia, não muito fáceis de encontrar por aí, sempre curiosas e que nos dão uma perspectiva de percurso do trabalho que tem vindo a desenvolver.
TANDANSSE . Como começou o seu interesse pela moda?
Luís Buchinho . Na pré-adolescência era completamente louco por cultura Pop londrina. Aos 13 ou 14 anos desenhava compulsivamente as bandas musicais, ilustrava os clips, inventava-lhes capas para os álbuns. Lembro-me que na véspera dum aniversário, estava com aquelas depressões parvas tão típicas da idade, e ver o Boy George a entortar os olhos para a capa da SMASH HITS era o género de coisa que me salvava o dia. O interesse por moda surgiu aos 15, através de uma namorada super fashion que devorava revistas da especialidade. O meu foco aí mudou: os desenhos das capas de discos passaram a ser da Vogue, Elle, Marie Claire. Esses mesmos desenhos, entre muitos outros, começaram a circular na aula de desenho do liceu. A minha professora foi incrível, traçou-me o rumo da minha vida ao obrigar-me praticamente a concorrer ao CITEX, no Porto. Tinha 16 anos, fui aceite, fiz as malas e vim aprender a coisa à séria.
T . Onde procura inspiração?
LB . Nas folhas em branco, no colocar dum tecido no manequim, na mesa de moldes. Ajuda muito se tiver como inspiração uma temática orgânica, pois acabo sempre por encontrar muitas surpresas na Natureza.
T . Ao fim de todos estes anos de carreira, em que acha que está diferente desde que começou a trabalhar (em termos de perspectivas, estética, inspirações, etc.)?
LB . Não consigo ter uma percepção muito realista dessa distância, nem perceber se passou depressa ou devagar, e sinceramente não quero saber. A técnica adquirida é sem dúvida uma ferramenta muito forte, poupa-me tempo e permite-me visualizar mais facilmente os resultados finais. Há, no entanto, algo que me acompanha desde sempre: a convicção que a melhor colecção de sempre é a próxima.
T . Consegue definir a mulher Buchinho?
LB . Consigo mas não vou definir. Vocês fazem-no melhor.
T . Que principais dificuldades enfrenta um designer português, hoje?
LB . Furar o meio internacional é difícil. Tanto para um português como alguém doutro país, estamos numa fase de tanta, tanta oferta a nível de moda que se torna complicado um nome novo vingar. Para mim, a maior dificuldade para um português é contextualizar a sua proposta dentro de Portugal que é um ponto de partida chato e relutante para marcas nacionais, por muito boas que elas sejam. E aí surge o desafio final, porque infelizmente muitas não o são.
T . Como vê o futuro enquanto designer/marca e que sonhos ainda mantém?
LB . Nunca fui muito sonhador, nunca tive muito tempo nem paciência para divagações ligadas a “ses”, “quando…”, “um dia…”, “talvez…” Cada dia é um dia, e o trabalho de campo tem um objectivo a atingir a cada meio ano.
T . Como vê o panorama dos futuros designers portugueses? Há algum que lhe suscite particular interesse?
LB . Há muito trabalho ainda a ser feito. Onde é que está a roupa pós-ModaLisboa e afins? Acho que a maioria das propostas nem sequer pensam no conceito primordial daquilo que estão a fazer – Pronto-a-vestir – ou seja, produto com pernas para andar no mercado. Dá trabalho? Sem dúvida. Mas é um trabalho que tem mesmo de ser feito. Para mim, o calcanhar de Aquiles da moda portuguesa é a falta de personalidade das propostas apresentadas. Confunde-se muito a questão da linguagem de criador com o gira o disco e toca o mesmo. Como se isso fosse reforçar outra coisa para além dum enorme bocejo. Tem mudado? Tem. Mas lentamente, muito lentamente. E a Moda tem sempre pressa.
T . Com 20 anos de carreira e toda uma vida rodeada de roupas e de moda, como vê o seu estilo pessoal?
LB . Mais básico, impossível. Boring.
T . Já tem ideias para a Primavera-Verão 2011?
LB . Já mas não vou revelar. Nem é por secretismo, mas ainda se vai partir tanta pedra.
Curiosidades
DESIGNER NACIONAL . Aleksander Protic
DESIGNER INTERNACIONAL . Ghesquiere, Mcqueen, Rick Owens, Hackermann, Demeulemeester
FILMES PREFERIDOS . “Requiem for a Dream” de Darren Aronofsky, “Donnie Darko” de Richard Kelly, “Strange Days” de Kathryn Bigelow, “12 Monkeys” de Terry Gilliam, “Flashdance”
PERFUME . Não gosta de usar perfume
CIDADE (que não a sua) . Lisboa ou Copenhaga
Portugal Fashion Paris OUTONO-INVERNO 2010-2011
Portugal Fashion PRE-FALL 2010-2011
Portugal Fashion JOTEX BY LUÍS BUCHINHO OUTONO-INVERNO 2008-2009
Portugal Fashion Paris OUTONO-INVERNO 2007-2008
Portugal Fashion Paris VERÃO 2006
ModaLisboa OUTONO-INVERNO 2002-2003
Portugal Fashion NY OUTONO-INVERNO 2001-2002
Nunca é demais agradecer a prestabilidade e simpatia do Luís em responder às nossas perguntas e disponibilizar estas imagens.
imagem cabeçalho . ModaLisboa/Rui Vasco

























