Archive for the ‘Baú’ Category
A ascese do mundano
Os símbolos e iconografias da nossa sociedade sempre foram alvo de reinvenções e reproduções no mundo das artes. Deles surgem criticas, interpretações, mensagens contra o estado de coisas e questionamentos de valores. Estes gritos são importantes. Eles precedem a mudança, lançam a controvérsia, pretendem abanar consciências e dar-nos outros prismas acerca de ideias que estão enraizadas e pré-estabelecidas.
O vestido de casamento e o véu, últimos símbolos da virgindade, da subserviência da mulher perante o homem e deus, embelezam-na, mas, em última instância, empobrecem-na. Retiram-lhe identidade, objectizam-na. A mulher, o casamento e todos os simbolismos a eles associados, reflectem o último requinte da ortodoxia, da permanência de valores desactualizados e do perpetuar de ritos, cuja origem nada tem a ver com a contemporaneidade. Hoje não passam disso, de símbolos, de ritos, desligados da sua génese, que encaramos inebriados pela sua descaracterização. Acho que nada melhor que estas imagens para ilustrar esta reflexão.
Sasha Pivovarova e Natasa Vojnovic por Craig McDean para Vogue Paris Abril 2006
à La Hubert
“You must, if it’s possible, be born with a kind of elegance. It is a part of you, of yourself.”
“It’s a fabulous thing, to give life to fabric, to make something move well, the harmony of colour.”
“Fabric is the most extraordinary thing, it has life. You must respect the fabric.”
“Every epoch is different, and you must accept the reality. C’est la vie. Happily, for many years we had a wonderful time. Beautiful fabric, beautiful people, beautiful memories.”
“I absolutely believe my talent is God-given. I ask God for a lot, but I also thank him. I’m a very demanding believer.”
Citações de HUBERT DE GIVENCHY
Fotografia de NAT FARBMAN, 1952
“The Fashion Show” (of the self)
O nome da colecção era “The Fashion Show”. Podia querer dizer muitas coisas. As luzes não acenderam como de costume, a música não ligou. Surgiu só a primeira modelo a suportar uma estrutura metálica que a iluminava e lhe dava o próprio som. Seguiram-se as outras, que penetravam o escuro, cegas pelos holofotes a incidir sobre si, desequilibradas pelos (provavelmente) desconfortáveis tamancos holandeses de salto alto. A plateia não sabia para onde olhar, se para as roupas, se para o aparato ou para a modelo aterrorizada à beira da possibilidade de queda mais monumental da sua carreira. Mas não é o sofrimento alheio que nos fascina, nem o insólito.
Neste “The Fashion Show” cada um habita o seu próprio mundo, cada um vive no seu próprio desfile e tem dificuldade em ver os outros. Celebrar a atitude individual ou criticar um mundo da moda cada vez mais autocentrado? O fashion circus narcísico que muitas vezes se gera nada tem que ver com roupas ou arte, mas com auto-promoções e colisões de protagonismos que se apoderam de grande parte da imagem que a moda tem para quem a vê de fora. A moda tornou-se um palco a que é confortável estar-se associado, que dá estatuto e reconhecimento e onde os umbigos estão no seu ambiente natural. A pensar sobre isto achei que não havia imagens mais pertinentes que estas.
VIKTOR & ROLF Outono-Inverno 2007-2008
imagens: catwalking
Paper Works
O trabalho de Miyake esteve sempre associado a tecnologia e inovação. As suas peças desconstroem o vestuário habitual, tornando-se numa nova corrente de ready-to-wear, desligada dos preconceitos inerentes à moda ocidental. Desta forma, o designer criou um legado de colecções que, no seu conceptualismo, nunca prescindem de ergonomia, conforto e leveza. A genialidade da sua obra está precisamente assente no corte que apresenta com a moda convencional, realçando o polimorfismo e liberdade de movimento, o design e a inovação têxtil. Este trabalho em papel, material também usado nas suas técnicas de plissagem, vem exemplificar muito daquilo que é o âmago da sua visão.
MIAKE’s PAPER WORKS por Yiorgos Mavropoulos
OZON MAGAZINE Outubro 2008
O “Futuro” como em 1982
A moda tenta sempre superar-se a si mesma. A procura pelo novo e pelo fresco é incessante e torna-se uma obsessão dos criadores e dos críticos, e todos nós bem sabemos o que é uma front row aborrecida. O futurismo está na ordem do dia, e acaba por estar presente, directa ou indirectamente, em quase tudo o que sai, desde colecções a produções. Mas não é “moda” dos tempos que correm: é um tema que foi já revisitado em várias décadas passadas, apesar da nostalgia que nos trouxeram os anos 2000. Trata-se então um exercício, uma tentativa de abstracção do presente e a reinvenção das formas, dos materiais, das sociedades, dos ambientes e de todas as outras incontáveis variáveis que influenciam o que vestimos.
Pois em 1982, um livro chamado “Fashion 2001” (de Lucille Khornak) desafiou vários designers conceituados da época a imaginarem como seria a moda no novo milénio, resultando em vários looks que pretendiam prever o que se vestiria neste início de século. O fim foi algo previsível, claro. Foi difícil fazer o desmame dos 80’s e claramente, em 2001, a maior parte das roupas pareceriam fora de moda. Jean-Charles de Castelbajac pareceu, no entanto, conseguir algo próximo da silhueta e materiais que marcaram essa altura. Com maior ou menor acurácia, vir do “futuro” espreitar estas previsões acaba por ser um privilégio.
JEAN-CHARLES DE CASTELBAJAC
GIANNI VERSACE
ISSEY MIYAKE
JEAN PAUL GAULTIER
THIERRY MUGLER CLAUDE MONTANA
GIORGIO ARMANI GIVENCHY
GIANFRANCO FERRÉ PIERRE CARDIN
KARL LAGERFELD POUR CHLOÉ BASILE
fotografia LUCILLE KHORNAK
fonte: thefashionspot
Just Married
Yves Saint Laurent Spring 2002
Com mais ou menos rendas, tules, sedas, pedras ou penas são, indubitavelmente, vestidos de noiva. Amados por quem os veste e respeitados por quem os maldiz passo a passo, até ao fim daquele dia.
Começando pela austeridade do McQueen, passando pelo woodstockiano Jean Paul Gaultier até ao cosmopolitismo do Donna Karan, ainda o japan-sportif Comme des Garçons, o new-look Dior e o incomparável parisien-chic Lacroix, a todos eles cabe um adjectivo e uma mulher por ele caracterizável. O YSL? Esse é a cereja no topo do bolo.
Alexander McQueen Fall 2010 . Jean Paul Gaultier Fall 2005
Givenchy Spring 2008 . Chanel Spring 2007


Jean Paul Gaultier Spring 2008 . Rodarte Fall 2010


Donna Karan Spring 2010 . Comme des Garçons Fall 2010


Armani Privé Spring 2010 . Dior Spring 2010


Chanel Fall 2008 . Lacroix Spring 2008
In case you’ve forgotten what FASHION is
Às vezes não sabemos bem o que a moda é. Se é uma indústria, se é uma arte, se é meramente uma forma de satisfazer uma necessidade básica ou se é uma forma de expressão e um reflexo sociológico. A moda também é coisas diferentes para pessoas diferentes. Alguns designers mostram-nos que a moda é útil, outros mostram-nos que a moda é uma estória. Para Thierry Mugler a moda era uma forma de materializar as criaturas que imaginava. O universo Mugleriano transporta-nos para bandas desenhadas, para personagens do fantástico e sobre-humano, para mulheres-criatura com superpoderes ou para entidades do futuro. Esses seres cobrem-se de materiais de ficção científica mas são também uma visão sexualizada e fetishista do french chic. A obra de Mugler passa pela alta-costura e transporta-a para referências inter-galacticas, a anos-luz dos anos 90. A habilidade teórica e técnica deste artista preenche um espaço de criação dificilmente ocupado por outras visões futuristas, definindo um ponto de vista de interesse praticamente museológico. Não é preciso apontar-vos a complexidade e mestria presentes nesta obra, cuja execução e detalhe estão para lá do breathtaking, não esquecendo o trabalho de maquilhagem e caracterização (e é com muita pena nossa que a era digital não nos permita obter imagens melhores).
É por isso que momentos e obras como estes nos ficam na memória e merecem lá este tipo de destaque. É por isso que não nos devemos esquecer do que é moda.
Thierry Mugler “Chimère”, Haute Couture Outono-Inverno 1997-1998
Une beauté d’autres temps
Talvez o facto de ainda estar imune às Fashion Weeks que vão sucessivamente acontecendo, mas que a seu tempo merecerão (e muito) a minha atenção, e de nestas alturas tudo parar um pouco dada a centralidade de eventos como esses, me tenha feito viajar por outras imagens. É quase estranho que não haja ainda nenhuma referência a Willy Maywald neste blog! E logo que nós que damos tudo por um par de imagens deste estilo. A elegância, as poses, a sobriedade e a técnica de outros tempos conseguem sempre sortir os seus efeitos, apesar do nosso olho já estar bem desperto para esse formato. Talvez isso mesmo nos permita apreciar ainda mais.
Nada de sexo explícito, tratamento digital ou casacos Balmain (Deus sabe que já nos saem pelos olhos!), mas antes a aura altiva, de elegância inatingível, a simplicidade das expressões e a complexidade da arte. Hoje não basta uma modelo mediana e um recanto de Paris para criar estas imagens. Não que não gostemos dos nossos tempos, mas hoje sentimo-nos Maywald.








Chirstian Dior






Jacques Fath

Pierre Cardin
Fotografias por Willy Maywald
L’Officiel de la Couture et de la Mode de Paris
Às vezes há algo que nos dá ainda mais gozo do que ver as últimas novidades da moda – vasculhar nos arquivos de revistas e criadores antigos. Por entre capas e editoriais históricos, tudo se mostra interessante, desde as roupas, claro, passando pelo design gráfico, às modelos, ao tipo de poses e de fotografia. Porque uma dessas nossas incursões se repercutiu numa série de reacções “ah, que lindo!” decidimos partilhar aqui uma espécie de timeline de capas da L’Officiel, que percebemos melhor agora porque era e é das mais importantes revistas de moda francesas.
1925 . 1928
1948 . 1952
1965 . 1974
1976 . 1980
1981 . 1983
1987 . 1991
fonte: The Fashion Spot















































































