Archive for the ‘Haute Couture’ Category
Couture Feelings
Críticos de moda há muitos, e todos melhores que nós. A alta costura mexe connosco para além da crítica fria e objectiva que se pode fazer com ciência. O objectivo foi sermos sensoriais e emotivos e falar do que nos orgulha, embevece e fascina neste mundo. Só disso surgiram estas considerações.
Tisci elevou-se. E elevou-se em vários termos. O sucesso comercial e crítico crescente do seu trabalho, a cada vez maior credibilização da sua visão enquanto couturier e a impregnação da sua identidade na moda de hoje são indícios disso. Mas a prova, a evidência disso, é a ultima colecção de Haute Couture para a Givenchy. Sim, fala-se em Frida Kahlo, dia dos mortos, catolicismo e outros ritos como inspiração, mas esta colecção é mais do que inspirações e concretizações de ideias. É Haute Couture pela Haute Couture. Pela exclusividade, pela arte, pelo detalhe, pelo estudo, pelo corte, pelo tecido e pela imagem holística das peças. É uma ode ao trabalhar, reflectir, aplicar alma a cada adorno cuja colocação e posicionamento têm horas de dedicação e paixão. Dez looks, dez modelos, uma sala e arte a transbordá-la. Rendas que marcam esqueletos, cascatas de franjas cuja avassaladora perfeição escultórica contrasta com a leveza das penas. Nú, branco e ouro. Os três elementos deste éter.
O trabalho não foi de Galliano, a visão não foi de Christian Dior, nem os méritos foram da nobre arte da Haute Couture. A imaginação, a arte, a proporção, as cores, as formas e as texturas foram todas artes da mãe natureza. Dior só fundou, Galliano só interpretou e a Haute Couture só permitiu. Um autêntico estudo em volta da flor, das suas partes e de um cocktail de processos biológicos que as tornam nas mais refinadas criações de arte. Seguiu-se esse caminho, esqueceu-se o atalho do sobre-dramatismo burguês do new look, dos muito ricos, dos sumptuosos vestidos e dos quadros dos grandes artistas das estações passadas, desceu-se à mais básica ideia da perfeição estética criacional e a flor tornou-se roupa. E ainda bem. E não falamos de florais, de roupas campestres e aplicações de pétalas aqui e ali. Falamos das morfologias, da organicidade, de caules, de anteras, da plasticidade e fluidez das flores, a vibração das cores, as rugas mais agressivas e as suavidades mais delicadas. Obrigado Galliano. Oferecemos-te uma flor.
Chanel é luxo, sofisticação, elegância. Isso já sabemos e não é sequer nesse sentido que procuramos surpresas. Nem Karl. De queixos caídos está a moda cheia. Numa era em que o avant garde e as “Lady Gagas” espalham os tentáculos até à quase deturpação do que a moda deve ou tem que ser, há sempre quem nos relembre da essência de uma boa peça, de execução e tailoring irrepreensíveis e de adornação que não ultrapassa os limites. Toques de realeza, alguma austeridade e rigor, bem longe da leveza jovial da Primavera passada. Tão interessante como deitar um “AH” a olhar para uma roupa é a possibilidade de uma mulher passar despercebida a usar algo em que todo este saber está aplicado. E a cenografia? Um leão gigante no meio do sumptuoso Grand Palais, perfeito, não fosse a distância entre a plateia e as peças, que dá uma visão quase míope da importância do detalhe inerente à Haute Couture.
HAUTE COUTURE OUTONO-INVERNO 2010-2011
imagens: vogue.co.uk
A ascese do mundano
Os símbolos e iconografias da nossa sociedade sempre foram alvo de reinvenções e reproduções no mundo das artes. Deles surgem criticas, interpretações, mensagens contra o estado de coisas e questionamentos de valores. Estes gritos são importantes. Eles precedem a mudança, lançam a controvérsia, pretendem abanar consciências e dar-nos outros prismas acerca de ideias que estão enraizadas e pré-estabelecidas.
O vestido de casamento e o véu, últimos símbolos da virgindade, da subserviência da mulher perante o homem e deus, embelezam-na, mas, em última instância, empobrecem-na. Retiram-lhe identidade, objectizam-na. A mulher, o casamento e todos os simbolismos a eles associados, reflectem o último requinte da ortodoxia, da permanência de valores desactualizados e do perpetuar de ritos, cuja origem nada tem a ver com a contemporaneidade. Hoje não passam disso, de símbolos, de ritos, desligados da sua génese, que encaramos inebriados pela sua descaracterização. Acho que nada melhor que estas imagens para ilustrar esta reflexão.
Sasha Pivovarova e Natasa Vojnovic por Craig McDean para Vogue Paris Abril 2006
Paco Rabanne, Designer and Rebel
Paco Rabanne, o espanhol de estatuto icónico e revolucionário, pode agora ser visto em detalhe numa exposição no âmbito do ESTORIL FASHIONART FESTIVAL. Uma retrospectiva que nos permite compreender a arte por detrás de um mestre que, através da arquitectura e holismo dos pequenos elementos, influenciou os seus e os nossos tempos. A variedade e especificidade dos materiais usados são mais que a identidade deste rebelde que também foi beber a Balenciaga, através da sua mãe, costureira deste. O TANDANSSE releva a importância de eventos como este em Portugal, para que se dê à moda a sua real importância, e nunca menos que isso.
EXPOSIÇÃO Museu C.C. Guimarães até 11 de Julho, com entrada gratuita, das 13h00 às 21h00.
fonte e imagens: estoril fashionart festival
à La Hubert
“You must, if it’s possible, be born with a kind of elegance. It is a part of you, of yourself.”
“It’s a fabulous thing, to give life to fabric, to make something move well, the harmony of colour.”
“Fabric is the most extraordinary thing, it has life. You must respect the fabric.”
“Every epoch is different, and you must accept the reality. C’est la vie. Happily, for many years we had a wonderful time. Beautiful fabric, beautiful people, beautiful memories.”
“I absolutely believe my talent is God-given. I ask God for a lot, but I also thank him. I’m a very demanding believer.”
Citações de HUBERT DE GIVENCHY
Fotografia de NAT FARBMAN, 1952
Diorettes
Gostando mais ou menos do estilo de Galliano para a casa Dior, as suas competências técnicas e artísticas são inegáveis. A alusão ao mestre perpetua-se estação após estação, mais ou menos literalmente, fazendo renascer e reinventar a mulher parisiense que, se pensarmos bem, nunca existiu.
Nas passerelles, a maquilhagem apresenta-se como o último ponto de refinação dos looks, mas ganha todo um outro nível de destaque quando o assunto é Dior. Operáticas, cheias de drama, carregadas e transformantes, mudam-se as modelos mas a mulher que Galliano imaginou permanece. Boneca de porcelana ou party girl dos anos vinte, nipónica from the darkness ou femme fatale de um film noir, o ênfase destas pinturas está em todo o rosto, não suavizando um único traço e criando outros inexistentes. Achamos por isso que merecia um altar.
Outono-Inverno 2010-2011 Alta Costura Primavera-Verão 2010
Primavera-Verão 2010 Alta Costura Outono-Inverno 2009-2010
Outono-Inverno 2009-2010 Alta Costura Outono-Inverno 2008-2009
Outono-Inverno 2008-2009 Alta Costura Primavera-Verão 2008
Primavera-Verão 2008 Outono-Inverno 2007-2008
Primavera Verão 2007 Outono-Inverno 2006-2007
Haute Haute Haute
Quando o assunto é Haute Couture, o TANDANSSE está interessado. Nada na moda tem capacidade de fazer cair tantos queixos como a alta costura e, no fundo, é uma linguagem que acaba por estar presente em quase tudo nesta indústria. Às vezes a nossa única vontade é mesmo só ver uma imagem bela, um vestido, uma personagem, que sabemos ter sido construídos com dedicação e arte. E não nos parece que alguém, amante ou não de moda, possa passar insensível a estas imagens.
LADY GREY
Alta Costura de todas as estações passadas
Suplemento de Alta Costura da VOGUE ITALIA MARÇO de 2010
Fotografia de TIM WALKER
fonte: thefashionspot
Une beauté d’autres temps
Talvez o facto de ainda estar imune às Fashion Weeks que vão sucessivamente acontecendo, mas que a seu tempo merecerão (e muito) a minha atenção, e de nestas alturas tudo parar um pouco dada a centralidade de eventos como esses, me tenha feito viajar por outras imagens. É quase estranho que não haja ainda nenhuma referência a Willy Maywald neste blog! E logo que nós que damos tudo por um par de imagens deste estilo. A elegância, as poses, a sobriedade e a técnica de outros tempos conseguem sempre sortir os seus efeitos, apesar do nosso olho já estar bem desperto para esse formato. Talvez isso mesmo nos permita apreciar ainda mais.
Nada de sexo explícito, tratamento digital ou casacos Balmain (Deus sabe que já nos saem pelos olhos!), mas antes a aura altiva, de elegância inatingível, a simplicidade das expressões e a complexidade da arte. Hoje não basta uma modelo mediana e um recanto de Paris para criar estas imagens. Não que não gostemos dos nossos tempos, mas hoje sentimo-nos Maywald.








Chirstian Dior






Jacques Fath

Pierre Cardin
Fotografias por Willy Maywald
Cool-ização à força
Houve um desfile de Alta Costura para esta Primavera-Verão que gerou especial burburinho. A pergunta (entre opiniões de mais ou menos negativas) ressoou: o que fizeram à casa Valentino? Depois de um dos últimos mestres da Alta Costura se ter reformado, as perspectivas eram bastante positivas: já todos estávamos um pouco aborrecidos com o mesmo tipo de criações que alimentavam a clientela envelhecida e socialite e os mesmos vestidos vermelhos. Colecção após colecção, a surpresa não era muita. Valentino tinha perdido o wow-factor.
Mas parece que o feitiço se virou contra o feiticeiro, e a dupla contratada para continuar em nome de Valentino absorveu bem o ultimato de que a casa precisa de uma reinterpretação mais jovem ou que a sua existência pode ficar comprometida. No fundo, nada disto é novo. Lacroix fechou. É preciso reformular a alta-costura, é preciso atrair novos clientes. Mas a que custo? Tornando-a algo que ela não é? Reinterpretando tendências num espaço que devia ser de criação e experimentação, cedendo mais uma vez a pressões comerciais? Usando Lindsay Lohan’s como “directoras criativas” para nomes como Ungaro? Pois parece que a casa Valentino foi mais uma das vitimizadas. Uma colecção pouco original, inspirações noutros designers (Balmain, Pucci, Balenciaga, Givenchy) e uma primeira fila cheia de adolescentes aristocratas, na esperança dessa conquista do novo público para a Alta Costura. Interessante ou não, sem dúvida muito pouco Valentino.
A questão persiste. Afinal devemo-nos manter colados a um formato desadequado para os novos moldes comerciais ou comprometer a criatividade e arte em nome da continuação de uma Haute Couture que cada vez o é menos? Entretanto, esperamos.




Valentino Haute Couture Primavera-Verão 2010




















































































